O futuro do software já começou

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Há três anos, quando ingressei no curso de Ciências da Computação, me ensinaram sobre o processo de construção de software em um contexto em que a IA ainda não era algo considerado uma ameaça real. Por isso, aprendi, de forma bem mão na massa, a importância dos modelos e das estruturas clássicas para que um software saia do papel.

Um exemplo disso é o modelo cascata, em que era necessário seguir etapas muito bem definidas: levantar os requisitos do que seria construído, projetar a solução, codificar, testar e depois lidar com a eterna manutenção.

O modelo cascata se desgastou rápido, mas boa parte do que veio depois nasceu a partir da estrutura que ele validou. Durante muito tempo, construir software significava seguir processos, respeitar etapas e desenhar com bastante antecedência aquilo que só seria implementado depois.

Só que o mundo mudou.

Tenho lido e acompanhado bastante o que está acontecendo. Especialmente nesta última semana, mergulhei em artigos sobre como a IA está mudando o processo de criação de código e estudei o que as principais ferramentas estão fazendo para melhorar seus produtos em prol de um mundo em que a IA domina.

E vou te falar a verdade sobre o principal insight que tive acompanhando os avanços do mundo tech: ninguém, absolutamente ninguém, tem certeza do que está acontecendo.

Tudo o que vemos e ouvimos por aí, no fundo, ainda são apostas.

A internet

Recentemente, assisti à série que retrata o processo do television contra o Google Earth e se passa entre os anos 1990 e 2010, no início do que viria a ser a internet de hoje. E eu realmente acho que estamos vivendo algo parecido.

Naquele momento, tudo o que se dizia sobre a internet era puro achismo. Os chamados especialistas, que trabalhavam com telecomunicação e tecnologia, não faziam ideia do que realmente estava para acontecer. Ainda assim, todo mundo tinha uma opinião. Algumas mais otimistas, outras mais pessimistas.

O que eu aprendo com isso é simples: a mudança revolucionária passa e não pede licença. Mesmo em meio às incertezas, alguns enriqueceram, outros perderam espaço, mas a adaptação aconteceu. Ela pode ser desconfortável, mas também é natural.

O que importa agora

Em meio a todas essas incertezas e especulações, existe uma verdade que, para mim, já está muito clara em 2026: boa parte do que eu estudei na faculdade há três anos, e do que ainda é ensinado hoje, não serve mais para o futuro que já está batendo na porta.

E eu digo isso com bastante cuidado.

Não significa que tudo o que aprendemos deixou de ter valor. Significa que a lógica prática de como construímos software está mudando mais rápido do que a academia, os cursos e até boa parte do mercado conseguem acompanhar.

Lembra daquela etapa de prototipar a solução em alta fidelidade usando ferramentas como o Figma?

Para estudantes e novatos da área, preciso dizer uma coisa de forma bem direta: isso já não existe mais da forma como foi ensinado para muita gente.

A grande virada

O primeiro ponto é que, entre novembro e dezembro de 2025, vimos uma melhora significativa nos modelos de linguagem voltados para código. E isso mudou bastante o jogo.

Muitos especialistas que antes rejeitavam IA por conta da baixa qualidade do código gerado passaram a utilizá-la ativamente. Não porque virou moda, mas porque a qualidade subiu a um ponto em que ignorar essas ferramentas começou a parecer improdutivo.

O impacto prático disso é enorme.

Gerar código nunca foi tão fácil. Você já não precisa esperar um design perfeito da solução para começar a desenvolver. O seu próximo produto já não depende, necessariamente, de uma etapa longa de desenho e diagramação feita com o mesmo nível de rigor que antes.

Agora, muitas vezes, a ideia de negócio sai da cabeça e vai direto para um prompt. E esse prompt já consegue gerar, de forma automática, boa parte dos pedaços de código necessários para uma primeira versão funcional da solução.

Isso não elimina a necessidade de pensar. Mas muda completamente a ordem das coisas.

Quando o código vem antes do desenho

Talvez uma das mudanças mais interessantes desse novo momento seja justamente essa: em muitos casos, o código vem antes da interface refinada.

Isso quebra uma lógica que foi ensinada por anos. Antes, o fluxo tradicional era pensar, desenhar, validar visualmente e só depois implementar. Agora, em muitos contextos, o que acontece é quase o inverso: você gera uma versão funcional primeiro, valida rápido e depois melhora a interface com mais precisão.

E isso nos leva ao Figma.

MCPs vieram para ficar

No final de 2024, a Anthropic lançou um modelo open-source de comunicação com LLMs, o chamado MCP.

Não vou entrar aqui em uma explicação técnica detalhada sobre como o MCP funciona, porque isso merece um texto próprio. Mas o ponto importante, neste momento, é outro: a forma como esse tipo de estrutura já está impactando o dia a dia de quem desenvolve software.

E muito.

Lembra dele? O Figma

O Figma, que citei anteriormente, vem lançando entre 2025 e 2026 melhorias no seu servidor MCP e em funcionalidades que reforçam exatamente esse movimento de mudança.

Na prática, já existem ferramentas que permitem transformar o código de UI de um produto em um protótipo no Figma com qualidade muito alta.

Eu literalmente consegui enviar todo esse projeto do blog para um arquivo em perfeito estado com um prompt.

Isso acompanha um movimento que me parece cada vez mais claro: o código vem primeiro, e depois pensamos em como refinar a UI em alta fidelidade.

Além disso, o próprio Figma agora já oferece recursos baseados em prompt para geração de canvas e estruturas de tela. Algo que, para quem começou o curso há poucos anos, pareceria quase absurdo.

O João calouro de 2023 iria ficar maluco se soubesse que seria possível criar e validar telas inteiras escrevendo duas linhas de prompt: “Usando esse arquivo Figma: [URL do arquivo Figma], crie uma nova página para a tela de configuração, use auto layout e nossos componentes existentes.”

O que ninguém te fala na faculdade

Se você está no início do curso e estudando Design de Produto ou UI, eu realmente recomendo acompanhar de perto o que ferramentas como o Figma estão fazendo.

Não porque a faculdade deixou de ser importante, mas porque existe uma distância cada vez maior entre o que está sendo ensinado de forma tradicional e o que já está acontecendo, na prática, nas ferramentas que moldam o mercado.

Ler a documentação do Figma, acompanhar updates de produto, observar como essas empresas estão se posicionando e entender os novos fluxos de trabalho talvez ensine mais sobre o futuro do desenvolvimento de software do que muitos conteúdos ainda presos em lógicas antigas.

E isso vale não só para design, mas para desenvolvimento, produto, automação e colaboração entre times.

O que me empolga nisso tudo

No meio de tanta incerteza, existe uma coisa que me empolga muito: ninguém tem respostas prontas.

E, para mim, isso é ótimo.

Em um mundo em que ninguém tem certeza exata do que está acontecendo, existe também um universo inteiro de novas possibilidades e coisas a serem criadas.

Sabe a história do Manifesto Ágil, criado por “uns caras” em 2001, por pura necessidade diante das novas dinâmicas do mercado de software?

Eu acho que estamos vivendo um momento parecido.

Novas profissões vão surgir. Novas metodologias vão surgir. Novas especialidades vão aparecer para resolver problemas que, neste exato momento, ainda nem existem.

E os questionamentos continuam:

  • Qual é o papel do novo estudante de Ciências da Computação na sociedade?
  • O que ele deveria estar estudando hoje?
  • Quando e como a IA vai se tornar realmente acessível para a massa?
  • Como a IA vai impactar o mercado tradicional de SaaS?
  • Quais serão as novas dinâmicas dos times de desenvolvimento?

São muitas perguntas ainda sem resposta.

E, sinceramente, isso me empolga muito.

Talvez devesse te empolgar também.

Porque, em tempos em que ninguém tem respostas prontas para nada, talvez essa seja justamente a oportunidade de descobrir, testar e construir coisas que podem impactar as próximas décadas.


A ideia desse artigo era gerar reflexões acima de respostas. Vou escrever uma série sobre temas relacionados as mudanças do mundo tech com mais opiniões, fiquem ligados. Abraços!


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